Supervisão: o clínico também faz parte do trabalho clínico
Olhar para o supervisionado com a mesma curiosidade com que se olha para um caso, e para o supervisor como parte do contexto.
A supervisão tem sido uma parte importante da minha vida profissional, tanto como supervisionada como enquanto supervisora. Ao longo dos anos, passei a ver a supervisão como algo muito mais complexo do que ensinar competências clínicas, discutir casos ou garantir que as intervenções são bem aplicadas.
Em muitos aspetos, abordo um supervisionado com a mesma curiosidade com que abordo um caso clínico.
Isto não significa tratar o supervisionado como um cliente. A relação, as responsabilidades e os objetivos são outros. Mas os princípios que orientam a minha compreensão do comportamento humano continuam notavelmente parecidos.
Quando um clínico tem dificuldade em aplicar uma intervenção, evita uma conversa difícil com um pai, fica na defensiva ao receber feedback ou repete as mesmas decisões clínicas apesar da supervisão, interessa-me perceber porquê.
É tentador interpretar estes comportamentos como falta de conhecimento, de motivação ou de maturidade profissional. Às vezes falta mesmo conhecimento. Mas muitas vezes a explicação é mais complicada.
- O que é que o clínico está a tentar alcançar?
- O que está a tentar evitar?
- Que consequências estão a manter o seu comportamento?
- Que aspetos do contexto estão a dificultar uma prática clínica eficaz?
São perguntas que faria para compreender o comportamento de um cliente. Não vejo razão para não as fazer em supervisão.
Uma das coisas que acho particularmente interessantes é o quanto a história pessoal de um clínico influencia o seu comportamento profissional.
Há supervisionados para quem é extremamente difícil desiludir uma família. Outros têm dificuldade em reconhecer incerteza, pedir ajuda ou admitir que uma intervenção não está a resultar. Alguns ficam demasiado dependentes de instruções, enquanto outros vivem a orientação como crítica.
Estes padrões não refletem necessariamente pouca competência clínica. Podem refletir histórias de aprendizagem, expectativas, inseguranças e formas de responder que foram reforçadas ao longo de muitos anos.
E entram, inevitavelmente, na sala de terapia.
Um clínico desconfortável com o conflito pode ter dificuldade em impor limites. Alguém que precisa de se sentir competente pode ter dificuldade em reconhecer erros. Um supervisionado com medo de ser mal avaliado pode concentrar-se mais em sair-se bem na supervisão do que em desenvolver o raciocínio clínico.
Compreender estes processos muda a forma como faço supervisão.
Dar mais instruções nem sempre é a resposta. Tal como não o é tranquilizar, corrigir cada erro ou tomar decisões pelo supervisionado.
Por vezes, estas respostas podem manter, sem querer, precisamente as dificuldades que estamos a tentar resolver.
Aprendi também que a supervisão pode despertar reações emocionais fortes dos dois lados. O feedback pode gerar ansiedade, frustração, vergonha ou resistência. Os supervisores também não estão imunes a estes processos. Podemos ficar impacientes, demasiado diretivos ou relutantes em abordar temas difíceis.
Acho importante olhar para o meu próprio comportamento nestas situações. Estou a dar o apoio de que este clínico precisa, ou estou a responder ao meu próprio desconforto? Estou a ajudá-lo a ganhar autonomia, ou a tornar-me indispensável?
Este é talvez um dos aspetos mais exigentes da supervisão: reconhecer que o supervisor também faz parte do contexto que influencia o comportamento do supervisionado.
Há um equilíbrio delicado entre apoio e responsabilização. Os supervisionados precisam de se sentir seguros o suficiente para reconhecer incerteza e erros, mas precisam também de sentir a responsabilidade que a prática clínica implica. Crítica a mais pode gerar evitamento e defensividade. Tranquilização a mais pode impedir a tomada de decisão autónoma.
Nenhuma das duas ajuda particularmente.
Para mim, uma boa supervisão passa por criar condições para que os clínicos possam olhar para o próprio comportamento com curiosidade e não na defensiva, aceitar feedback sem o sentir como uma ameaça à sua identidade e ganhar, aos poucos, confiança para tomar decisões que consigam justificar clinicamente.
Isto leva tempo. E exige aceitar que o desenvolvimento profissional raramente é linear.
Já supervisionei clínicos com muitíssimo conhecimento que tinham dificuldade em passá-lo para a prática, e clínicos menos experientes que mostravam uma sensibilidade, uma flexibilidade e um raciocínio clínico notáveis. O conhecimento técnico importa imenso, mas é apenas uma parte de se tornar um clínico eficaz.
O que mais continua a interessar-me é o desenvolvimento do pensamento clínico: a capacidade de questionar pressupostos, tolerar a incerteza, reconhecer a própria influência numa situação e adaptar-se quando os dados indicam que algo tem de mudar.
No fundo, não acredito que o objetivo da supervisão seja formar clínicos que pensem como o seu supervisor.
É ajudá-los a tornarem-se clínicos capazes de pensar de forma autónoma, de reconhecer quando precisam de apoio e de se manterem abertos a aprender.
E talvez o mesmo princípio se aplique à supervisão e à terapia: o nosso sucesso não se mede pelo quanto alguém continua a precisar de nós, mas por aquilo que passa a conseguir fazer sem nós.